Reestruturar débitos reduz inadimplência para os bancos.
Índice de atrasos na carteira de crédito para empresas dos bancos teria sido 23% maior sem as reestruturações.
Josette Goulart,
O Estado de S.Paulo
Durante este ano, os grandes bancos brasileiros, entre eles
Itaú, Bradesco Santander e Banco do Brasil, adotaram em suas estruturas
operacionais uma nova diretoria, a de “situações especiais”. O objetivo
dos bancos era ter uma equipe especializada não só em renegociar
dívidas, dar mais prazo, exigir mais garantia, mas efetivamente
reestruturar as empresas, tentando com isso evitar que os calotes
cheguem aos resultados dos bancos. Quando uma empresa atrasa um
pagamento, a instituição precisa fazer uma provisão que afeta
diretamente seu lucro. Além disso, os números de inadimplência crescem.
Segundo dados do Banco Central, a reestruturação de dívidas reduz
a inadimplência nos bancos. Até junho deste ano, a inadimplência nas
carteiras de crédito de pessoa jurídica, por exemplo, teria sido 23%
maior não fossem as reestruturações. O índice foi de 3%, e teria ficado
em 3,7%, segundo o BC. Em dois anos, os dados do BC mostram que as
reestruturações cresceram 158% no sistema bancário, saindo de R$ 14
bilhões para R$ 37 bilhões.
Um caso prático que ilustra como um calote pode aumentar o índice
de inadimplência dos bancos foi o pedido de recuperação judicial da Oi.
A empresa tem uma dívida de R$ 65 bilhões e os bancos estão entre os
credores relevantes da companhia. Quando a recuperação judicial é
efetivada, as instituições financeiras imediatamente provisionam 60% do
crédito que emprestaram. E a inadimplência, por consequência, é
imediatamente afetada. No caso da Oi, a decisão de entrar em recuperação
aumentou em média 0,3 ponto porcentual no índice de inadimplência dos
bancos no segundo trimestre.
Provisões. Na última
divulgação de resultados das empresas, referentes ao terceiro trimestre
do ano, os bancos já se mostraram mais otimistas. As provisões para
calotes apontaram uma desaceleração e os bancos já preveem que, a partir
do primeiro semestre do próximo ano, a inadimplência deva começar a
cair. Mas as análises foram feitas antes da nova crise política que se
instalou no País e dos números do Produto Interno Bruto (PIB), que
fizeram economistas rever previsões para o ano.
O presidente da consultoria alemã Roland Berger, Antonio
Bernardo, diz que as provisões para calotes ainda devem subir. Em sua
visão, os bancos, mesmo com novas áreas especializadas, têm problemas em
agir preventivamente para evitar que as empresas quebrem.
Ele conta ter feito um trabalho para identificar o nível de
relacionamento de um grande banco brasileiro com seus clientes de médio
porte e descobriu que os gerentes só conversam com as empresas quando
têm algum crédito a ser concedido. “Os bancos se contentam com
demonstrações contábeis que são velhas e esquecem de conversar com os
seus clientes e saber o que eles estão fazendo para o futuro”, diz.
“Os bancos brasileiros deveriam analisar o que aconteceu com os bancos europeus recentemente. Na Itália, os bancos precisam de ¤
20 bilhões em capital para fazer frente aos calotes das empresas.” Ele
também critica o fato de os bancos serem muito restritivos ao crédito a
pequenas e médias empresas, ajudando a agravar a situação dessas
empresas.
http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,reestruturar-debitos-reduz-inadimplencia-para-os-bancos,10000092427